Obliviário

S.m./ fig.: neologismo criado para designar o local ou suporte (areia, canhenho, memória, etc) onde se regista informação destinada ao apagamento ou ao esquecimento, num processo semelhante ao erase and rewind, damnatio memoriae ou o palimpsesto. Contacto: obliviario [at] gmail.com

12 de Julho de 2009

Norte de Portugal: uma visão para a Região?

A participação cívica é, sem dúvida, um dos vectores principais da democracia. O voto é importante, mas se deixarmos nas mãos dos políticos todas as nossas decisões, se lhes passarmos procurações para a mão, deixamos de ser cidadãos para passarmos a ser contribuintes representados, um número pelo qual nos reconhece a Administração Pública, sem mais. Como tal e dando o exemplo destas palavras fui discutir o PLANO REGIONAL DE ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO DO NORTE – PROT-NORTE que se encontra em fase de apreciação pública em http://consulta-prot-norte.inescporto.pt/. Não domino todos os saberes nem todas as áreas, mas as que me dizem directamente respeito, como habitante e natural do Norte, como cidadão informado e atento que me orgulho de ser, fiz questão de comentar o tal plano e as tais estratégias que os Governos por vezes impingem menos por razões sociais e mais por razões políticas. Não sei se os resultados desta "discussão" irão ser tornados públicos, nem se haverá um diálogo entre o cidadão e a CCDR-N que tutela este plano, mas por via das dúvidas deixo-o à consideração dos leitores do Obliviário os comentários que fiz a alguns pontos do mesmo. Para memória futura.

PLANO REGIONAL DE ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO DA REGIÃO DO NORTE
Visão para a região
(...)
Organizar o sistema de acessibilidades de forma a reforçar o papel dos pontos nodais e a valorizar o futuro serviço de comboio de alta velocidade na cidade do Porto, incluindo a ligação a Vigo, no sentido de aumentar o seu potencial na organização das cidades do Noroeste peninsular;

Comentário: Como cidadão e como utilizador do sistema ferroviário parece-me excessivo que se ponha ênfase no futuro serviço do comboio de alta velocidade do Porto a Vigo. Aliás, a expressão é do PROT, fala-se em "valorizar". Quem conhece a actual ligação ferroviária, lenta é claro, enquadrada num serviço inter-regional, verifica que o volume de pessoas que utiliza o transporte ferroviário não justifica a futura Rede de Alta Velocidade. Portugal, ao invés de começar cedo a investir nas vias férreas (amigas do ambiente, cómodas e abertas ao turismo) encheu o país de auto-estradas e quer agora "valorizar" a linha de alta velocidade. Ela não deveria ser valorizada, pois depreendo que o valorizar quer dizer lançar o projectoe depois promovê-lo para justificar o seu elevado custo. Não, pelo contrário. Deveria surgir segundo uma necessidade. O que não é o caso.
(...)
Proteger a paisagem e ordenar os espaços protegidos como um pilar fundamental de
desenvolvimento, de sustentabilidade e de expansão da actividade turística;


Comentário: Proteger a paisagem não combina, ou, pelo menos, em alguns casos, não vai de encontro ao ponto abaixo que refere o potenciamento da produção de energia eólica, já que a instalação dos aerogeradores desequilibra a harmonia da paisagem e interfere no ecossistema de várias maneiras. Urge encontrar pactos e soluções para cada caso pois muitas serras, como no caso do Montemuro estão a ser alvo de uma devstação completa sob a desculpa das "energias renováveis".
(...)
Desenvolver o cluster do turismo, explorando as múltiplas potencialidades existentes:
patrimónios mundiais (Douro Vinhateiro e Arte Rupestre em Foz Côa), rio Douro, quintas, solares, paisagens, identidade cultural das aldeias e pequenas cidades, termalismo, produtos de qualidade;

Comentário: Um dos "produtos de qualidade" é o património religioso, associado ao turismo cultural. Porém, o património religioso não se encontra referido neste plano. Porquê? Não será o santuário da Senhora dos Remédios, em Lamego, um dos pontos de atracção maiores do Douro? os as igrejas românicas? os mosteiros? E quando me refiro a estes edifícios não falo, apenas, no investimento em folhetos ou livros e roteiros turísticos que levam os visitantes a igrejas em ruínas, sem sinalização e sem informação local. O trabalho deve começar por investimento em restauro, conservação e preparação do espaço para acolhimento de visitantes. O dinheiro gasto em panfletos é um desperdício, quando verificamos que os edifícios carecem urgentemente de obras de beneficiação.
(...)
De acordo com a programação existente para a rede de altas prestações ao nível nacional, prevê-se a conclusão de uma nova linha em bitola europeia entre Braga e Valença até 2013. As opções relativas à rede ferroviária na Galiza apontam para a conclusão do corredor Porrinho-Vigo também para essa data, pelo que será possível antever para um calendário próximo a plena operação de ligações directas entre Campanhã e Vigo num tempo próximo dos 60 minutos, com possibilidade de continuação para Norte, uma vez que a Estação de Vigo deixará de funcionar como terminal. Para 2015 está prevista a conclusão da nova linha de alta velocidade em bitola europeia entre Lisboa e Porto, sendo claro que o sobredimensionamento da actual Estação de Campanhã permite a operação das duas bitolas, inclusive com utilização simultânea da Ponte de S. João por mais alguns anos.

Comentário: A problemática do TGV é, essencialmente, política pois um transporte deste género, não serve as reais necessidades da população. Basta avaliar a distância entre as localidades que vais unir, mais a mais, parando as vezes que pára: (desde Lisboa) Coimbra, logo a seguir Aveiro e, praticamente, logo depois Porto para ir a Braga e Valença (!!) antes de entrar em Espanha. Um serviço de velocidade como o que já existe na Linha do Norte, servido por uma composição que atinja os 200 km/hora é o suficiente. A remodelação e electrificação da Linha do Minho até à fronteira e a criação de um rápido até Vigo seria uma opção mais do que suficiente para atrair passageiros, com um preço moderado e acessível à maioria dos utilizadores. Mas mais importante: impediria a destruição de largas parcelas de paisagem pelo Minho que vai ser, literalmente, rasgado pelo corredor da rede de Alta Velocidade. Talvez se justifique este projecto enquanto ligação inter-capitais, no caso Lisboa-Madrid. No Norte de Portugal, dada a sua extensão, a extensão reduzida das suas comunidade e o crescimento galopante das suas comunidades menores em comunidades maiores e, como tal, mais próximas, parece-me um desperdício de fundos e um atentado ao ordenamento territorial sustentado.

No que respeita à Linha do Douro, decidida que está a sua remodelação até à Régua, preconiza-se a sua beneficiação até ao Pocinho a par com a reabilitação do troço Pocinho a Barca D’ Alva. Uma vez que nunca será a exploração regular de passageiros ou de mercadorias a justificar a sua manutenção, terão de ser encaradas outras perspectivas associadas à actividade turística, sendo essa também uma questão que se coloca relativamente aos seus ramais de bitola estreita. O valor dessas linhas ferroviárias, no seu conjunto, ultrapassou há muito o da sua utilidade prática, pelo que a questão que se coloca é de natureza patrimonial, ou seja, a sua representação simbólica, inserida numa paisagem muito específica, torna-as indissociáveis do ponto de vista do produto turístico a consolidar.

Comentário: "O valor dessas linhas [de bitola estreita] ferroviárias, no seu conjunto, ultrapassou há muito o da sua utilidade prática". Ultrapassou porque o lobby da camionagem ganhou, nos anos 80, mercê de uma avidez em encher o país de asfalto. Em Espanha há serviço de bitola estreita electrificado utilizado em distâncias suburbanas e regionais. Com um sucesso e vantagens que seriam semelhantes, por exemplo, no eixo Vila Real, Regua, Lamego. Basta ver o caso das ligações de Oviedo-Gijón-Santander. O comboio não deve ser um só instrumento turístico deve ser um meio concreto e efectivo de locomoção das populações. Então e o protocolo de Quioto? a redução das emissões de Co2? É aumentando o número veículos nas estradas?

PLANO REGIONAL DE ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO
DO NORTE – PROT-NORTE: Fase I - Estudos Complementares de Caracterização Territorial e Diagnóstico Regional

Em termos da tipologia de imóveis / bens classificados o Norte apresenta a seguinte distribuição tipológica / distrito: (...)

Esta contagem não avalia as reais necessidade de protecção, estudo e divulgação do património. Antes de mais ele deve ser avaliado em património "útil" ou que ainda representa uma função na sociedade (património religioso afecto ao culto e solares, por ex.) e património museólogico ou musealizável (estações arqueológicas, castelos, etc). Além do mais centra-se numa pequena franja do património nacional: aquele que está classificado. Este, só por si, não serve de indicador, nem potencia a verdadeira escala do património num contexto turístico e educacional.
(...)
ACÇÃO 4 - promoção da cultura popular (...) 
Comentário: O que é, segundo a definição actual de sociólogos, antropólogos e historiadores, a "Cultura popular"? Quais os seus limites? Popular em relação a quê, a uma Cultura erudita?
(...)
Neste sentido, e no que concerne ao Douro, teria forte efeito polarizador agregar os seguintes recursos: (...) Lamego – Centro Histórico; Mosteiro de Ferreirim; Igreja do Mosteiro de S. Pedro de Balsemão":
Comentário: E a Catedral? E o Museu Diocesano? E o Santuário da Senhora dos Remédios?

Comentário final: Considero francamente redutora a análise feita ao estado e necessidades no âmbito do património cultural e construído na Região Norte, avançadas pelo PLANO REGIONAL DE ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO DO NORTE – PROT-NORTE. Ficam de fora temas, problemáticas e assuntos particularmente sensíveis para o conhecimento/promoção da Região Norte, tais como: uma rede mais completa e equipada de museus (inter-municipais, sobretudo) e arquivos, conferindo-se uma importância maior à arqueologia, importância que, quanto a mim, é excessiva. A manutenção das estações arqueológicas é cara e pouco atractiva quando comparada com outros equipamentos culturais. O investimento em edições digitais, conteúdos interactivos digitais e de acesso online deve ser colocado à frente de muitos projectos: a era é do digital. Importa, pois, reabilitar e investir na acessibilidade cibernética e presencial, contemplando as áreas do estudo e, sobretudo, da recuperação. Como tal, onde estão previstos programas para apoio a inventário e conservação monumental?

8 de Julho de 2009

Não discutimos a Nação!



... - dizia o Senhor Presidente do Conselho da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar. E dizem os organizadores das festividades que comemorarão, em 2010, os 100 anos sobre a instauração do regime republicano. Não discutem a Nação que lhes passou um cheque de 10 milhões de euros em tempo de crise, nem discutem o regime que os amamenta com o saudável leite da ideologia burguesa. Ou não fosse o cabecilha desta organização um banqueiro. Artur Santos Silva preparou, aliás, um programa muito interessante para estas lautas festas que fazem lembrar, em muitos aspectos, as comemorações do Estado Novo: República e Lusofonia, Arte e Espectáculos, Jogos do Centenário, República nos Media, Edições e Exposições do Centenário, Portal Centenário da República e Georeferenciação e Fluxos de Comunicação. Se substituirmos a Lusofonia por Império, o Portal pelas luxuosas publicações editadas pelo Secretariado Nacional de Propaganda, de resto tudo, ou quase, tudo é decalcado de cérebros muito semelhantes aos da Revolução Nacional. Aliás, a formatação ideológica a partir das escolas parece ser um ponto assente no programa desta Comissão: rever, revisitar e reformatar a imagem da República de forma a servir um Estado moderno é o objectivo principal. («As actividades previstas incluem exposições, encontros científicos, roteiros municipais, jogos e concursos e actividades nas escolas», Público, 08-07-09). Num país onde a Escola já quase não tem contacto com a História do seu país, onde os estudantes não saber situar cronologicamente os acontecimentos e as figuras que o antecederam; num país onde os museus não têm orçamento para quase nada, nem para conteúdos educativos, gastar 10 milhões em propaganda republicana é imoral e muito pouco ético. Incorrendo no risco de parecer imparcial, diria que é um crime. Mas estas coisas, que vão sendo hábito numa sociedade pouco transparente e habituada à impunidade, não espantam saindo da boca, mãos e cabeça de banqueiros. Fico realmente admirado que uma pessoa de consciência, saber e intelectualidade como a Dr. Raquel Henriques da Silva (que, mais do que ninguém, conhece o Estado da Cultura em Portugal) assine por baixo desta fantochada.

7 de Julho de 2009

O Vocabulário do Vazio.

Cristiano Ronaldo pobreza Michael Jackson exclusão Cristiano Ronaldo mortalidade infantil Cristiano Ronaldo abusos sexuais Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Michael Jackson iliteracia Cristiano Ronaldo exclusão Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Michael Jackson Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo fome em África Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Michael Jackson Cristiano Ronaldo fome em nossa casa Cristiano Ronaldo fome à nossa porta Cristiano Ronaldo educação Michael Jackson valores Cristiano Ronaldo desespero Cristiano Ronaldo solidão Cristiano Ronaldo abandono Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo corrupção Michael Jackson ética Cristiano Ronaldo moral Michael Jackson conflitos Cristiano Ronaldo terrorismo Michael Jackson vaidade Cristiano Ronaldo Michael Jackson sofrimento Cristiano Ronaldo dor Michael Jackson eutanásia Cristiano Ronaldo genocídio Michael Jackson homicídio Cristiano Ronaldo tortura Michael Jackson Cristiano Ronaldo direitos humanos Michael Jackson discriminação Cristiano Ronaldo homofobia Michael Jackson xenofobia Cristiano Ronaldo cobiça Michael Jackson Cristiano Ronaldo desemprego Michael Jackson desespero Cristiano Ronaldo suicído Michael Jackson ruína Cristiano Ronaldo desgraça Michael Jackson morte Cristiano Ronaldo Michael Jackson inglória Cristiano Ronaldo Michael Jackson Cristiano Ronaldo.

4 de Julho de 2009

Um post em dois tempos e meio.

I

Não é por falta de tempo. É por falta de interesse. Este monólogo, umas vezes catártico, outras exercício exorcista, pouco mais alimenta que a necessidade de desenvolver temas que acabam por morrer na praia. Não sou comentador, ou seja, não corro a comentar notícias, nem a alimentar especulações de polémicas frescas. Aliás, se o fosse não teria mãos a medir, tal a torrente, tal a catadupa de casos caricatos ou situações bizarras que este país produz diariamente. Sempre fui um free-lancer, auto-didacta orgulhoso que tem o gosto de mostrar a quem mais gosto aquilo de que gosto. Por isso  o Obliviário não aparece entre os primeiros nas estatísticas, nem nos recortes blogosféricos dos jornais. Mas é bom. É bom conquistar um lugar discreto, quase um cantinho aconchegante neste mundo estranho e às vezes distante que é a internet. 

II

O que é democracia? - pergunto aos meus alunos. Eles dizem-me que é algo teórico e eu tento convencê-los do contrário. Mas contradigo-me e sinto-o ao seguir atentamente a política portuguesa. Os movimentos de bastidor, os negócios, os subterfúgios, as mentiras. Fala-se em qualidade de democracia e imputa-se aos políticos uma melhoria da mesma, mas esquecem-se do essencial: os cidadãos, a base de uma pirâmide que não se sustenta sem cultura e sem educação. Para mim a democracia pode melhorar se melhorar o sentido de ética, que falta aos jornalistas, que falta aos funcionários e a todos que partilham uma responsabilidade colectiva no dia-a-dia. Aliás, a comunicação social atiça o incêndio da discussão, mas talvez seja ela própria o incendiário e a chama inicial. Como Quarto Poder, (em alguns casos, Poder Único) modela a consciência dos menos afortunados pelo interesse e pela crítica. Como a maioria dos universitários, pouco criativos, menos ainda conscientes e cada vez mais dependentes do oportunismo, os jornalistas são, na sua maioria, medíocres e pouco exigentes. Os restantes, politizados, vão segurando o bastão do poder e manejando esta gente amorfa. Sim, foi o gesto de Manuel Pinho que decidiu a sua própria fortuna, mas é a imagem moldada pela comunicação social que torna o facto mais ou menos relevante. A responsabilidade da democracia deve ser repartida por todos. Ela não é dos políticos, nem dos jornalistas. É nossa.

Uma nota: o facebook e o twitter são as ferramentas do momento e permitem criar espaços mais intimistas de troca de ideias. É um dos motivos pelo qual o Obliviário tem estado mais silencioso e vazio. Não obstante o facto de ter já comentado quer num quer noutro a morte de Michael Jackson não posso deixar de acrescentar algumas linhas a este respeito. Li, num tópico da internet, uma frase grosseira, "proferida" num tom irónico por um psicólogo (!) que dizia "gostar muito de Carlos Cruz mas que este não chegava aos calcanhares de Michael Jackson". É óbvio que a afirmação, um tanto ou quanto rude (e irresponsável, se pensarmos que foi proferida por um cientista) apelava para o facto de ambos serem acusados de crimes semelhantes, relacionados com o abuso sexual de menores. Cá está um exemplo de como, em Portugal, tudo passa pelos media: a política, a cidadania, a democracia, a justiça, começa e esgota-se nos jornais e na televisão. O processo Casa Pia ainda não terminou e já há culpados. É-se acusado, julgado e condenado virtualmente; partidos sobem e descem por estatísticas que, se não são manipuladas, são-o com certeza tendenciosas e aplicadas no "momento certo". Enfim, Michael Jackson, que mais do que ninguém beneficiou da imagem e da sua manipulação, viveu sob o pêndulo dos media. Foi glorificado e crucificado e, na morte, reabilitado a ícone maior. A pedofilia (crime pelo qual não chegou a ser condenado) é um delito abominável. Mas as suas supostas vítimas, como as supostas vítimas de Carlos Cruz, ficarão para sempre anónimas. Esta é a hipocrisia  ou a realidade do mundo em que vivemos. Não podemos combater a biologia humana, mas podemos crescer em crítica e valores. E isso é que é importante. As grandes coisas só são grandes se lhes dermos importância.

24 de Junho de 2009

E a Revolução saiu para a rua...



Stencils pró-republicanos e pró-monárquicos nas ruas de Lisboa e Porto.

23 de Junho de 2009

O Turismo em Portugal.


Imagem retirada daqui

Ontem, na RTP1, falou-se de turismo. De como esta indústria pode ser importante para a economia portuguesa (!). Pinho, o Ministro de alguma coisa, olhava para a assistência, inchado de empáfia, como o guru de uma tribo, mas a sua face deixava transparecer a ignorância. Foi talvez preciso ouvirem da boca do presidente da Organização Mundial de Turismo que esta indústria podia salvar uma economia em crise, para que todos os políticos presentes vestissem uma cara trágico-patética, de alguém que tinha acabado de inventar a roda. § Recordei então o primeiro dos arrependimentos de Sócrates, recentemente tomado por uma onda de humildade e veemência. Confessava ele estar arrependido por não ter investido mais na Cultura. Talvez algum dos seus assessores, num acesso de lucidez lhe tenha dito: "sabe, senhor engenheiro, se tivesse gasto menos em computadores Magalhães e mais em livros, exposições, na reabilitação do património ou na criação de roteiros culturais, talvez Portugal tivesse mais motivos para acreditar num futuro melhor". § Entretanto, com o seu estilo natural de político profissional, estava por lá o Presidente da Câmara de Baião que também deve já ter percebido (tem formação académica para isso, pelo menos) que as cavacas e os salpicões não atraem turistas e que Eça de Queirós (que, coitado, enfim, lá deu com os costados em Santa Cruz do Douro) serve para trazer às Serras algum dinheirito. Não sei se os seus congéneres dos municípios vizinhos de Resende e Cinfães se encontravam na plateia ou, pelo menos, assistiram - das suas pantufas - ao debate e às conclusões que saíram das profundezas da Mina de Sal-gema em Loulé. Mas espero, sinceramente, que alguém os informe das mesmas. É que cada um deles, trauliteiro político à sua maneira, mais preocupado em inaugurar parques de merendas e arranjos de jardim, tem de perceber, mais tarde ou mais cedo, que o Turismo e a Cultura são factores essenciais para a criação de emprego, dinamização económica e social e um dos pilares do progresso sustentado de que as normas europeias tanto falam. E o tal Turismo, que ontem era de sol e praia, hoje exige novos conteúdos que a paisagem, a gastronomia e o artesanato, só, não asseguram. Eu espanto-me como ainda há quem pergunte que serve a História ou para que serve o Património. Aparentemente para nada, ou para muito pouco, pelo menos em Portugal. § É claro que no resto da Europa serve para, entre muitas outras coisas, fazer dinheiro.

21 de Junho de 2009

S/título, Porto, 2009

São João do Porto

Porto, 21 de Junho 2009 (preparativos de São João) (c) N.R.

20 de Junho de 2009

Dos Diários.


Imagem retirada daqui

Para que serve um diário? para adolescentes confusas mapearem o caminho até à libido? para intelectuais dolentes grafitarem frases avulsas de viagens íntimas (escancaradas)? Seja qual for o uso que se lhe dá, um diário é a melhor das armas e o maior dos medos. Saber que alguém conta os seus segredos e os dos outros, com a impunidade de um gesto pelas costas chega a ser delicioso. Obscenamente delicioso. Adoro diários. Sobretudo lê-los (os dos grandes escritores, claro). Não escrevo regularmente anotações pessoais suficientes para chegar a construir a que possa chamar "diário". Mas tenho as minhas notas. E às vezes (confesso, confesso...) penso o quão bom seria se aquelas páginas se soltassem. Porque há pessoas que vivem uma alegre fantasia perante os outros. Julgam que ninguém sabe, julgam que ninguém sonha e, afinal de contas, já todos leram os diários uns dos outros. O diário é apenas um exercício, sem garantia de confidencialidade. Basta ler Sebastião da Gama ou Miguel Torga - nós não somos os voyeurs, eles é que o são.

Assim se escreve a História local em Portugal.


Global, n.º 414, 19-6-2009

(clique sobre o recorte para aumentar)

Sem qualquer pejo as Câmaras Municipais alinhavam roteiros turísticos com textos académicos, sem autorização e sem ressarcir os seus autores poupando tempo e dinheiro e ganhando visibilidade em promoção. Para estes políticos de alcova o trabalho de investigação não vale nada. É carolice. Mas já que está feito vamos aproveitá-lo. O dinheiro gasto por estes panfletários dava para suprir o que falta em educação por estas terreolas afora. Novas Oportunidades para os políticos, isso sim, faz falta.

15 de Junho de 2009

Crónicas de uma viagem II

Estação ferroviária de Toledo Comboio Madrid-Toledo

El Berrón - entroncamento ferroviário de linha estreita Tren del Cantábrico

Fotografias (de cima para baixo, da esquerda para a direita): 1 Estação ferroviária de Toledo (em estilo neo-árabe); 2 aspecto do interior do comboio interregional entre Madrid (Atocha) e Toledo; 3 Entroncamento ferroviário de El Bérron, onde se cruzam as linhas estreitas que servem Oviedo, Santander e Gijón, todas electrificadas; 4 O Tren del Cantábrico. É possível, desde Bilbau ou Santander apreciar os montes Cantábricos e as Astúrias num comboio-hotel que circula em via estreita. Seria o equivalente a ir do Porto a Bragança em comboio, algo que já foi possível e hoje é mera utopia.

Não é preciso ir à China, ou melhor, não é preciso ir a Espanha para ver que, tal como está projecto, o TGV não tem sentido absolutamente nenhum em Portugal. Espanha construiu e continua a construir as suas linhas de alta velocidade em tempo oportuno, seguindo as demandas do mercado. Unir Barcelona a Madrid faz sentido. Madrid-Sevilha, também. E, seguindo a tendencial força tentacular da capital da Península Ibérica, chegar a Lisboa pode, talvez, ser um bom negócio para os castelhanos (embora chegar a Sines ou a Leixões seja bastante mais vantajoso para a economia de nuestros hermanos). § Andar a brincar aos comboios num país que encerra linhas turísticas porque são uma ameaça para os seus passageiros, ou que não investe em ligações ferroviárias regionais e interregionais claramente viáveis (e refiro-me às ligações a Bragança e Viseu, por exemplo), é um perfeito dislate. Mais um, aliás, com que nos brindam os governos e os governantes da III República. Sim, por que no que concerne a politiquismo, despesismo e má governação, Sócrates não só não dá cartas, e não foi o inventor dessa fórmula que dirige este país há 30 anos. Devemos recordar o glorioso Cavaco Silva que inundou o país de cimento e asfalto, distribuiu uns quantos Range Rovers a meia dúzia de patos bravos e hoje empoleira-se na cadeira do poder como uma virgem vestal, púdica e recatada. Afinal, tudo começou durante o seu consulado: os dinheiros europeus enebriaram todos, desde o presidente da junta até ao Ministro dos Transportes e foi um corrupio. O que se vê hoje? "Prédios Coutinho", o lixo visual da cidade de Braga, o Centro Cultural de Belém e umas quantas ic's esburacadas que ligam meia dúzia de vilórias do interior. Os caminhos-de-ferro não progrediram, as estradas só servem para fugir e o ambiente aguentou com as consequências de anos e anos de más políticas (passamos das etar's para as eólicas como se nada fosse...). Bom, isto tudo para dizer que se em Espanha o TGV funciona, um comboio a circular em via estreita também. E está electrificado, coisa estranha e nunca vista em Portugal. É possível atraversar-se as Astúrias e os montes Cantábricos (Santander-Oviedo e Bilbau-Léón) em carris de ferro de bitola estreita. Em Portugal a ligação Porto-Salamanca (que mais rapidamente nos aproximava à Europa) foi fechada porque o seu rendimento não conseguia assegurar os benefícios do conselho de administração da CP. Ganharam os lobies das empresas de autocarros que, não só contribuiram para o desgaste das estradas portuguesas, promoveram o trânsito e a poluição em escala nunca antes vista e (porque ninguém pensa nisso) tornaram as estradas menos seguras. Eu nem quero alongar-me a falar da linha que liga Oviedo a Leão. A foto abaixo é apenas um vislumbre do tipo de locais por onde ela passa (ou melhor, serpenteia) - está electrificada e equivale a uma das nossas linhas suburbanas, embora no percurso sirva apenas meia dúzia de aldeolas. Parece que é rentável. § Ou os administradores da RENFE ganham menos que os da REFER/CP, ou alguém em Espanha leva o curso de engenharia até ao fim.

Vista do comboio entre Oviedo e Leão

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