14 de Dezembro de 2009

«Se estamos todos muito bem preparados para reclamar liberdade para nós próprios, menos dispostos parecemos para reclamar sobretudo liberdade para os outros ou para lhes conceder a liberdade que está em nosso próprio poder; se conhecêssemos melhor a máquina do mundo, talvez descobríssemos que muita tirania se estabelece fora de nós como se fosse a projecção ou como sendo realmente a projecção das linhas autocráticas que temos dentro de nós; primeiro oprimimos, depois nos oprimem; no fundo, quase sempre nos queixamos dos ditadores que nós mesmos somos para os outros; e até para nós próprios, reprimindo todas as tendências que nos parecem pouco sociais ou pouco lucrativas, desejando muito que os outros nos vejam como simples, bem ajustados, facilmente etiquetáveis.»


Agostinho da Silva, Sobre as Escolhas

10 de Dezembro de 2009

Lamentações sobre o Património...

Antes (até 2006)



Aposto que pensavam que ia falar do último Câmara Clara, sobre o Património Religioso e o Restauro em Portugal. Não vou. Não foi totalmente mau, nem foi consideravelmente bom. Aliás teve coisas muito más para serem verdade. Ainda há muito para dizer sobre o património religioso em Portugal, mas há assuntos comezinhos que é preferível ignorar. Prefiro lembrar um caso de restauro de que muito me orgulho. Não que o tenha efectuado, mas porque movi todos os esforços para que fosse levado a cabo. O resultado está à vista. É a jóia da coroa da 2ª fase de inventário do património religioso da Diocese de Lamego (Lamego-Tarouca).


Lamentação sobre o Corpo de Cristo
Primeira metade do século XVI
Atrib. a Cristóvão de Utrecht (seg. Vitor Serrão)
Prov. do Tesouro da Sé de Lamego


(hoje)

O restauro foi executado no Centro de Conservação e Restauro da Escola das Artes e constituiu um enorme desafio, que foi superado com mestria. E a Diocese de Lamego recuperou uma das suas jóias. Pessoalmente é, a seguir à coordenação do inventário, aquilo de que mais me orgulho como meu legado ao Douro, a Lamego e a Portugal. Aos poucos vamos restaurando Portugal.

8 de Dezembro de 2009

Dez milhões de monarcas.

Entretanto, dizem-me que haverá um recital de Natal no Paço de Vila Viçosa, «sendo utilizado para o efeito o Piano John Brinsmead & Sons, oferta de casamento da comunidade britânica residente em Lisboa para os Príncipes D. Amélia e D. Carlos». Desculpem parecer tão extremista, mas estas coisas enojam-me. Anda o país em bicos dos pés a comemorar e a exaltar os valores desta República quase centenar, podre, corrupta, sem ética e com muito pouco(s) valor(es), e de todos os lados saltam «comemorações régias»: lançamentos de biografias e conferências para onde confluem hordas de historiadores-detectives empenhados em descobrir o lugar de nascimento do primeiro rei deste país (que, por acaso, só por «acaso», até lhe deve a existência). Mas se perguntarmos a um destes senhores que vão a concertos de pianos outrora régios ou que dão muita importância a berços reais, o que acha do regime monárquico dirão que é um regime caro, despesista e moralmente indigno para uma sociedade moderna. A tão poucos se aplica, como aos portugueses, a expressão «ter o rei na barriga». Não queremos reis porque somos todos reizinhos, monarcas absolutos do nosso mundinho.

مئذنة


Por não ter costa, talvez a Suíça não saiba o significado, nem a importância de um farol.


A Suíça é tida como um dos países mais democráticos do Mundo. Em alguns ocasiões o seu desenvolvimento, a sua liberalidade, traduzida na proverbial neutralidade que tem mantido face à História recente da Europa, tem sido elogiada por todos. Mas, se o seu aparente multiculturalismo (a Suiça é apenas um cruzamento de várias nacionalidades, sem uma identidade linguística ou homogénea precisa) é o lugar perfeito para uma comunhão edénica de vários interesses não é menos evidente que este bastião de «independência» não resiste à vaga de extremismos nacionalistas que assola praticamente toda a Europa. Muitos, entre os quais não me includo, explicarão com gráficos, inquéritos e metodologias várias a razão destas atitudes contra minaretes (leia-se muçulmanos), mas ainda que não seja sociólogo ou politólogo posso dar a minha opinião: aquele cadinho de culturas tão ao agrado da esquerda caviar, está à beira do melt down. É elementar, meus caros: quando no mesmo cadinho se fundem metais com diferentes massas ou metais que fundem a diferentes temperaturas, o produto final é inconsistente e quebra. O multiculturalismo é uma palavra muito bonita se for aplicada em certos contextos, quando todos estivermos ao mesmo nível de acesso as oportunidades. Hoje proíbem-se os minaretes, retiram-se os crucifixos das paredes e regula-se o uso do véu islâmico. Em algumas empresas inglesas já não se comemora o Natal para não «ferir» susceptibilidades de ateus e outros crentes. Por outro lado expulsam-se emigrantes, prendem-se outro por suspeita de terrorismo (afinal infundada). Então, afinal o que é o multiculturalismo? A convivência que sempre existiu ao longo da história, umas vezes pacífica, outras violenta,ou o que nos querem fazer crer hoje: um falso paraíso onde todos nos amamos incondicionalmente?

30 de Novembro de 2009

Viriato e Barcelos (C) *

*Lá diz o cangalheiro: «Eu não quero que ninguém morra, mas quero que o meu negócio corra»
A versão moderna, da indústria farmacêutica seria: «Eu não quero que ninguém adoeça, mas que o meu negócio não empeça»

29 de Novembro de 2009

O Norte, os aviões e a regionalização que se segue.


O Mundo é composto de mudança: ontem os barcos, hoje os aviões.


Corre por aí boato que versa sobre a possível transferência do Red Bull Air Race, uma competição de aviõezinhos que anualmente traz às margens do Douro uns milhares de pessoas, dando, talvez, a ilusão de que o Porto tem gente e tem poder. Porque isto do poder não é uma coisa inerte, inorgânica ou meramente geográfica. O poder emana dos indivíduos e das suas relações. Como tal sempre tive muita desconfiança em relação à regionalização. Mudar os sinais de trânsito pode alterar a circulação mas pode não diminuir/aumentar o tráfego. Acontece o mesmo com a regionalização: a mudança geográfica, imposta, dos centros de decisão pode não trazer o estatuto de centralidade. § Vejamos o caso do Porto. § Esta cidade criou uma autonomia e uma importância durante a Idade Média e a Idade Moderna. Lutou contra o Bispo e contra o Rei, mas sempre que era necessário era aliava-se a um para combater o outro. Quando todas as cidades tinham o corpo de um santo (eram, portanto, santuários) o Porto arranjou um (São Pantaleão) para se tornar invencível a uma escala espiritual. O Porto não competia com Lisboa, competia com as outras cidades da Europa, queria igualá-las (Lisboa era apenas uma pedra no seu sapato). Os seus governantes tinham o brio de pertencerem a um estatuto especial, o de cidadãos do Porto. Um tipo de nobreza, mas sem fidalguia. Havia, pelo menos, brio. Hoje, a maioria dos que defendem a região não são do Porto, nem querem que o Porto lidere uma futura e eventual Região Norte. E, se calhar, têm razão, o Porto nunca liderou nada que não fosse o seu próprio Burgo. Mas ao estilhaçar o poder, perde-lo-ão. Aqui não cabe a máxima "dividir para reinar". Se o Norte não encontra um poder , uma razão que o una, então é porque não deve ser unido. Deve permanecer como está, uma amálgama de coisas distintas vagamente descrito pelo resto do país por um sotaque, por um certo clima e por uma paisagem mais agreste. Quanto aos aviões irem para Lisboa, não me parece que seja importante a deslocalização de um evento como estes. O mais grave é que já não haja cidadãos, como aqueles de avô e pai, para lutar pela cidade. A fuga das pessoas da cidade é mais importante, do que a fuga dos pequenos e barulhentos aviões. E se forem os carrinhos de corrida, não creio vir mal ao mundo. O que a cidade não se pode deixar ao luxo de deixar fugir são os cérebros, gente activa que invista as suas ideias e a sua força aqui, em projectos centralizadores, permanentes e não apenas cíclicas. De coisas efémeras está o mundo cheio.

24 de Novembro de 2009

Martírio no feminino: fotografia e iconografia

22 de Novembro de 2009

«Outro se querendo navegar pola rota do seu exórdio deles, pedindo a V.A. favor & emparo, pera que minha enferma escritura não seja ferida de línguas danosas. Parece-me injusta oração pedir tão alto esteio pera tão baixo edifício, quanto mais ainda que dino foram de tão nobre emparo, tenho considerado que Cristo filho de Deus sob emparo de poderio eternal do Padre & todos os seus bem aventurados santos não passaram por esta vida tão livres, que dos malditos detratores não fossem julgadas suas divinas obras, por humanas leviandades: sua santa doctrina, por máxima ignorância; sua manifesta bondade, por falsa malícia; sua santíssima graça, por sorretício engano; sua excelsa abstinência, por vil hipocrisia; sua celeste pobreza, por terreno vício

Gil Vicente

19 de Novembro de 2009

#Sugestões: congresso.


Sem esoterismos, histerias e outras quejandas coisas que não lembram ao Diabo, este congresso sim, vem discutir o essencial. Para mais informações, ver aqui.

16 de Novembro de 2009

A arte de gastar II.



(...)
Chegou enfim o dia da repartição da terça. Eram cerca de oitocentos os pobres dados na lista, e duzentos contos a terça dos três milhões. Orçou por sessenta moedas de ouro a esmola de cada um. (...)
Sumariando os males que imediatamente à distribuição do dinheiro se experimentaram, não houve no decurso do ano seguinte jornaleira nem oficial de alguma arte que aceitasse trabalho. As filhas dos lavradores equipadas de grilhões e arrecadas de ouro, afligiam os pais com rogos de iguais enfeites; e, se lhos negavam, fugiam da labutação dos campos, compelindo os pais a premiarem-lhes a desmoralização da desobediência.
Convergiram àqueles sítios jogadores de longe, sendo a esquineta o jogo mais na voga e livremente exercido em público.(...)
Duas especialidades de luxo, de algum modo ridículas, se manifestaram naquele gentio de oitocentas pessoas, apostadas a dissiparem algumas centenas de contos: uma era que todo o herdeiro comprou seu garrano; a outra era regular cada qual o seu tempo por dois relógios à feição dos «incríveis» do Directório em França. Em dia de romagem, cada freguesia regorgitava uma caravana de romeiros, cavalgados em garranos, gritando à desgarrada: «Viva Londres!» e, à porta de cada taberna, se algum ébrio bastante cínico bebia à saúde do defunto Manuel Vieira, a chusma gargalhava, babujando com a espuma do vinho uns chascos vilanazes como eles esvurmavam desta ralé do Minho, a mais bestial raça que estanceia na Europa

Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, vol. II.