11 de Novembro de 2009

Coisas interessantes ou coisas que interessam?

Num país com uma longa tradição de corrupção, numa altura em que aumentam de dia para dia os escândalos descobertos nas esferas da alta finança, o Governo e a Igreja vêm discutir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tanto o Estado, na sua faceta providencialista, (quando não simplesmente manipuladora), como a Igreja, enquanto instituição dotada de personalidade jurídica e com inegável importância na sociedade portuguesa (quer queiram os jacobinos, quer não) têm todo o direito a intervir nesta questão que ultrapassa aspectos meramente legalistas. § Mas se do lado do Estado, a questão se assume de um simples ponto de vista - cumprimento de uma agenda política (PS), dependente de outra (BE) - preocupa-me que a Igreja, enquanto instituição com preocupações assistenciais e sociais, alinhe nesta estratégia do atirar areia para os olhos dos portugueses. Um referendo esclareceria a questão: ganharia, muito provavelmente, a abstenção. Mas é desnecessário. § A quem interessa o assunto? Às minorias, a um Bloco de Esquerda que se esgota neste tipo de abordagens e a uma franja da Igreja acoitada que tenta fundamentar-se num modelo de família heterossexual, fiel e monogâmica, recusando a mudança social, rápida e indiferente ao casamento. Hoje mesmo uma notícia o confirma: os portugueses casam-se cada vez menos e os divórcios duplicam. Não seria melhor que a Igreja fizesse uma campanha a favor do casamento heterossexual em detrimento de uma política de agressão (que não quer, nem pode aguentar) contra o Governo? O que não deixa de ser paradoxal; ou seja, que as pessoas do mesmo sexo, queiram equiparar-se aos casais heterossexuais, constituindo uma família (ainda que sem laços consanguíneos), espelho daquela que a Igreja advoga como pedra basilar da sociedade. Em que ficamos então? Ficamos a olhar para uma desagregação da Sociedade em uniões de facto, outras momentâneas, poligâmicas, promiscuas em vez de apoiar as estruturas nucleares (que, como bem sabemos nunca foram o modelo católico)? § A Igreja não pode aguentar esta batalha, nem quererá, dado que é refém da República Portuguesa. Esta dependência começou no Liberalismo e hoje é cada vez mais evidente, quer na forma como do Estado dependem em larga escala as IPSS's católicas, que a nível municipal onde os párocos locais são, tantas vezes, extensões das edilidades que, em alguns casos, não se poupam a esforços para agradar a fiéis e comissões fabriqueiras. § Que o Partido Socialista use destes truques para ludibriar as atenções sobre a corrupção, o desemprego, ou o défice, etc, compreende-se, sendo certo que colhe tais habilidades na cartilha para a boa arte da política. Mas que a Igreja embarque nesta perigosa aventura, preocupa-me. O assunto não se esgota ou no sim ou no não, nem é situação que obrigue a uma discussão urgente. Mais ainda quando todos os dias encontro um novo sem abrigo a dormir numa das ruas aqui do Porto.

4 de Novembro de 2009

Castas Corruptíveis.

Nos grandes ninguém toca, porque os pequenos não deixam, ou não querem, respondo eu a Mário Crespo. Quem não vê com benevolência as pequenas maroscas portuguesas? O desenrasque-se quem puder? o chico-espertismo de que falava Eduardo Prado Coelho e todos os filósofos de ontem e de hoje? Enquanto houver uma cultura de facilitismo, os grandes roubam e ainda dão grandes lições de vida ao vulgar português: roubar compensa e é um modo de vida como qualquer outro. A mudança tem de começar de baixo para cima, porque o topo já está podre. Quando a copa de certa árvore está atacada da moléstia, não há se não esperar que seque para a arrancar e plantar outra. Devemos fazer os possíveis para que a próxima não venha contaminada.

2 de Novembro de 2009

1#notas republicanas

Via Biblarte (Flickr)
Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais


É Salazar. E a bandeira é a da República Portuguesa. Não, não há engano. Ao contrário do que algumas pessoas, como o sr. Mário Soares, querem fazer crer, não houve suspensão da República entre 1926 e 1974. Vamos mesmo comemorar o Centenário da dita no próximo ano.

1 de Novembro de 2009

Cabeças de abóbora.



Enquanto ontem e hoje os urbanos andavam a ensinar os filhos a fazer cabeças com abóboras e a pedir doces pela rua fora, como fazem os filhos dos outros, na América, eu andava Douro acima e Douro abaixo a matutar nas coisas da vida. Coisas como: onde está o amor pelos mortos? o amor pelos antepassados? Depois lembrei-me...mas se nem o há pelos vivos. E encolhi os ombros. Lembrei-me depois de umas certas sociedades, ditas «primitivas», que têm nas suas cultura sum código que os compromete a respeitar os mais velhos e a ter pelos que faleceram um respeito que os filhos não têm hoje pelos pais (ou vice versa). Aqui, nas cidades, nas redes sociais, talvez sejamos nós os mortos e no fundo não nos respeitemos uns aos outros. Mas, que história é essa do Halloween, afinal? Já não temos que comer os americanos todos os dias do ano? A gente estúpida que passa a vida a dizer que as religiões isto, as religiões aquilo e que tudo é gerido pelas religiões, não faz um acto de contrição e começa a questionar outras coisas, como esta parvoíce? Só temos Harry Potter's, vampiros, anjos com atitudes estranhas, ainda nos fazem falta as abóboras? Eu dizia, se o recato me deixasse, o que alguns desses pais podiam fazer com as abóboras. Mas prefiro aconselhar o doce, com umas lascas de noz ou amêndoa, para desenjoar da parvoíce. Hoje comemora-se o Dia de Todos os Santos e amanhã o dos Fiéis Defuntos. Até prova em contrário esta jangada de pedra ainda não navegou até ao outro lado do Atlântico.

Na mouche.

É a golpadazeca do ordinareco que faz umas jogadas, umas burlas, umas corrupções, umas porcarias, umas porcarias, condenando o país e com uma ilusão: é que quando morrer acha que leva isso tudo."
Via 31 da Armada (obrigado Raquel)

É óbvio que quem assim sem fala é tomado como louco. Um expressivo e completo alienado que não só deveria ser exilado como é uma terrível ameaça à morrinhice portuguesa. Mas nunca ninguém definiu tão bem e com tão poucas palavras o funcionamento da nossa sociedade. É que o ordinareco não é só o de colarinhos brancos. As jogadas, as burlas, as corrupções são os patamares da hierarquia em Portugal. Passar à frente na fila de trânsito, cobiçar o emprego do amigo, roubar as ideias dos outros são tópicos comuns em qualquer parte do mundo, aqui são a cartilha. Aquela frase devia passar de meia em meia hora nas rádios e na televisão. Podia não adiantar de muito, mas sempre nos lembrava o que somos.

30 de Outubro de 2009

Do Amor.

«Duas enfermidades há por aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas: uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos, o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída.»

Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.

29 de Outubro de 2009

2#Pensamentos rápidos



Gripe, crise, roubos, mortes. Não há nada de novo debaixo do sol. Mas às vezes apetecia-me por a cabeça fora do mundo só para ouvir o silêncio das esferas.

26 de Outubro de 2009

Síndrome da Bipolaridade Induzida pela Comunicação Social (SBICS)

Há um clima de histeria contida, quando se fala na vacinação contra a Gripe A. Quem é vacinado e quem não é, quem quer ser e quem não quer. Parecem os dias do fim, descritos pelo Apocalipse. Só que paradoxalmente todos querem ter a marca da Besta e os que a não recebem serão lançados no lago de fogo. A Comunicação Social dá uma ajuda neste vai-e-vem de lucidez e loucura. Como na história daquela senhora violentamente agredida numa Marco de Canaveses que há uns meses os media descreveram como um crime horrendo e odioso e hoje desmentem apresentando a verdade dos factos: fora a vítima o seu próprio carrasco. Vivemos numa sinistra balança que nos embala os dias e as noites. Ora somos injectados com euforia, ou tratados para a depressão. Vivemos numa constante bipolaridade induzida.

24 de Outubro de 2009

Guimarães [*] é uma cidade com as suas curiosidades. Uma delas reside no facto de, por aqui, os "historiadores" parecerem brotar às catadupas, de onde menos se espera. Dá-se um pontapé numa pedra e saltam dois "historiadores" de baixo dela. O mais certo, é serem especialistas num dos ramos mais obscuros dos estudos históricos nacionais, a Idade Média. O que não falta por aí são "medievalistas de bancada", que nunca entraram num arquivo e que são incapazes de lerem e de interpretarem um documento medieval, por manifesta iliteracia paleográfica, mas que transluzem certezas em matérias em que os humildes historiadores profissionais apenas conseguem avançar, e muito à cautela, com dúvidas e incertezas. § Não tenho por hábito discutir medicina com médicos, nem leis com juristas, nem gáspeas com sapateiros. Do mesmo modo, não discuto história com qualquer um, pelo que há muito adoptei o hábito higiénico de ignorar as "obras" desses historiadores adventícios. E, confesso, também não tenho como argumentar com tais "eruditos", uma vez que não tenho o hábito de ler o que escrevem, por falta de interesse e de paciência. [...]

Blogue Memórias de Araduca

[Substitua-se Guimarães por qualquer município deste País. Junte-se a este excerto o que se disse aqui e o que dissemos aqui para vislumbrar o estado da História e da Historiografia local em Portugal]

#Sugestões (2)

I. Adeus à Era dos Jornais? Um velho tema, reciclado no The New Republic.
II. O regresso à Linha do Tua: o fim estará mesmo próximo?
III.O anúncio do nascimento do senhor D. Duarte Pio João de Bragança, herdeiro da Coroa de Portugal (1945).
IV. A tripla estrela de Saturno num quadro de Rubens.
V. Câmaras Municipais Portuguesas obrigadas a ter um plano contra a corrupção? Contra qual corrupção? [Ainda há dias um funcionário público me dizia que existem vários níveis de corrupção dentro das Câmaras Municipais, a «cunha» do Presidente da Câmara anula a «cunha» do Vereador que, por sua vez, anula a cunha do técnico administrativo, etc, etc. Faz lembrar aquela arenga revisteira: tudo rouba minha gente. É difícil acabar com isto...digo eu.]
VI. O debate Padre Carreira das Neves versus Saramago. Não foi uma luta épica, antes confrangedora, entre dois velhinhos em cavaqueira amena. Saramago sai a ganhar. A Igreja Portuguesa é muito branda e relaxada. E tem um problema que é o seu pecado capital maior: quer estar de bem com Deus e com o diabo. Quando perceber que isso não é possível será, talvez, tarde de mais. [Post scriptum: o Caderno Anti-Saramago tem, como é seu apanágio, uma magistral resposta à polémica. Uma resposta à altura, aliás, daquelas que o Prof. Carreira das Neves não conseguiu aplicar].